ENTENDENDO O DUPLO
COMPORTAMENTO
Introdução
1. É diferente do transtorno dissociativo da
personalidade, quando uma pessoa tem comportamentos e atitudes expressando
personalidades diferentes, sem que uma tenha consciência do que a outra faz, alternando
uma e outra[1].
Também é diferente da esquizofrenia, em que a pessoa apresenta perda de contado
com a realidade e alteração de comportamento, mas não chega a apresentar
diversas personalidades ao mesmo tempo[2]. O
comportamento duplo ocorre quando uma pessoa vive ações e atitudes diferentes
das ações e atitudes que gostaria de ter ou que de fato tem em outros momentos,
tendo consciência do que está experimentando. Esse comportamento também é conhecido
como dupla moralidade ou vida dupla.
2. Geralmente este fenômeno ocorre em virtude de padrões
de comportamentos que distinguem o certo do errado, o bom do mau, o bem do mal,
o moral do imoral. Esses padrões são oriundos de códigos de comportamentos de
origem religiosa, que são absorvidos também pela sociedade e são introduzidos
na personalidade através do ensino adquirido, mas se conflitam com suas
tendências naturais, ao contrário das pessoas que vivem no cotidiano de acordo
com o que acreditam, e, por isso, são coerentes[3].
1. Exemplos sociais
Vários casos que ocorrem na sociedade podem ilustrar o duplo comportamento ou dupla moralidade: a) uma pessoa acredita e diz que roubar é errado, mas ocasionalmente aproveita alguma oportunidade para pegar algo de alguém; b) uma pessoa declara que ama outra pessoa, mas não consegue deixar de agredir essa outra pessoa; c) uma pessoa sente-se ofendida quando é tratada com discriminação, mas ao mesmo tempo discriminar uma pessoa de cor; d) uma pessoa defende a importância da saúde pública para os outros, mas paga e usa plano de saúde empresarial para si; e) uma pessoa diz a outras pessoas para agirem de um modo, mas ela mesma não age como recomenda.
E 2. Exemplo religioso
Em sua sincera confissão a respeito do que se passava em
seu interior e na sua vivência, Saulo de Tarso compartilhou essa experiência.
Ele disse de si mesmo: “Não entendo o que
faço. Pois não faço o que desejo, mas o que odeio. Nesse caso, não sou mais
eu quem o faz, mas o pecado que habita em mim. Sei que nada de bom habita em mim, isto é, em minha carne. Porque tenho
o desejo de fazer o que é bom, mas não consigo realizá-lo. Pois o que faço não
é o bem que desejo, mas o mal que não quero fazer esse eu continuo fazendo.
Assim, encontro esta lei que atua em mim: Quando quero fazer o bem, o mal está
junto de mim. Miserável homem que eu sou! Quem me libertará do corpo sujeito a
esta morte?”. Tinha, portanto, uma vida dupla. Conseguiu descobrir a causa:
sua tendência natural pecaminosa que conflitava com a Lei de Deus que ele também
queria seguir. Mais ainda: conseguiu descobrir a solução do problema: sua
conversão a Jesus Cristo, tornando-se o apóstolo Paulo (Romanos 7.15, 18-21,
24,25).
3. Permanência do conflito interior
Se a experiência de conversão do apóstolo
Paulo lhe deu coerência entre o seu agir e o que passou a acreditar, deixando
de ter duplo comportamento ou dupla moralidade, como estilo de vida, isto não
significa que resolveu totalmente o problema interior, que se passava em seu
coração. Daí por diante, porque sua natureza humana continuava oposta à vontade
de Deus, ele continuou vivenciando conflito interno, embora não mais no
comportamento. Ele expõe esse conflito interno que permaneceu em seu coração, nas
expressões usadas posteriormente em suas cartas, tais como: “a carne luta contra o espírito e o espírito
contra a carne”; “Vivam pelo Espírito, e de modo nenhum satisfarão os desejos
da carne”; (Gálatas 5.16,17). O segredo estava no domínio do Espírito de
Deus sobre sua natureza humana.
4. Soluções terapêuticas
Entre as várias propostas para lidar com o fato, destacamos a neurociência e a psicanálise. Na abordagem da neurociência, a solução está no desenvolvimento natural e saudável do córtex pré-frontal, que uma vez acionado no meio das experiências de opções comportamentais, direciona para decisões corretas, controle dos impulsos, regulação das emoções e adequada expressão da personalidade - essencial para comportamentos sociais complexos, inclusive os de natureza espiritual. Na psicanálise, diante dos conflitos intrapsíquicos entre o id e o superego, a gestão saudável do ego inclui a sublimação das pulsões, um mecanismo de defesa, possibilitando que impulsos sexuais ou agressivos, inaceitáveis social e espiritualmente, sejam desviados para atividades construtivas e valorizadas, como arte, ciência, esporte, trabalho e religiosidade.
Conclusão
Existe alguém que consegue ter coerência
absoluta espontânea positiva entre
sua natureza humana e os padrões morais estabelecidos pela religião e pela
sociedade? A resposta de cada um precisa ser analisada à luz da realidade expressa na revelação
bíblica sobre a natureza humana!
Certamente, existem os que têm coerência
absoluta espontânea negativa porque não
tem padrões morais e seu comportamento reflete exatamente essa falta de
moralidade e de ética. O estilo de vida é espontânea e naturalmente identificado como mundano, carnal, libertino, sem qualquer tipo de limite ou repressão. Se fazem parte de alguma expressão religiosa, quer na liderança, quer sendo membros, agem movidos unicamente pela natureza humana egoísta, hipócrita, narcisista, psicopata, sem realmente considerar valores morais, culturais, sociais e espiritual. Usam a religiosidade apenas como ferramenta para alcançar seus objetivos pessoais.
Os que, à semelhança de Saulo de Tarso, conseguem coerência entre a moral religiosa/social e seu comportamento ao se tornarem crentes, reprimindo seus impulsos, certamente continuarão, por isso mesmo, tendo conflito interno, sempre lembrando das palavras de Jesus Cristo: “Vigiem e orem para que não caiam em tentação. O espírito está pronto, mas a carne é fraca”. Sempre precisarão, por tudo isto, da suficiência da graça, pois estarão sujeitos a inevitáveis recaídas, razão porque o apóstolo João ensinava: “Estas coisas vos escrevo, para que não pequeis, mas se alguém pecar, temos um advogado para com o Pai, Jesus Cristo, justo” (I João 2.1). João apóstolo escreveu isto para crentes, cujo estilo de vida tem como alvo a idoneidade e a santidade! Crentes que, naturalmente, passaram a ter duas naturezas (uma espiritual e outra carnal) e terão conflito íntimo, sem que seja transtorno dissociativo da personalidade ou esquizofrenia. Crentes que, por isso mesmo, dependem totalmente da graça de Deus em Cristo Jesus e da ação do Espírito Santo em integrar os padrões morais e espirituais ao seu modo de ser.
Referências:
[1] https://www.msdmanuals.com/pt-br/profissional/transtornos-psiqui%C3%A1tricos/transtornos-dissociativos/transtorno-dissociativo-de-identidade
[2] https://cuidadospelavida.com.br/blog/post/pacientes-com-esquizofrenia-podem-ter-multiplas-personalidades
[3] https://conceitos.com/moral-dupla/
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E-BOOKS PUBLICADOS:
https://fliphtml5.com/bookcase/thwoap/?1774003150059
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